segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pro blog

Temi algumas horas por sua perda. Mas é com imenso alívio no coração que volto a habitá-lo, afinal, ficaria tão vazio sem todas estas bobagens que o alimentam, não é mesmo?

Criança de rua sem circo n praça XV

"Criança malabarista de sinal
de bola de tênis amarela voando baixo
rolando longe no asfalto molhado
na poça vermelha do sinal fechado

Criança dessa tem o circo é dentro dela
é trapezista saltando no ar sem rede de proteção
é palhaço de si, rindo do que não há
fingindo ser ensaiada e puxada da cadeira que a derruba
a tinta na cara feito máscara que a torne personagem
e só assim capaz de aguentar esse número

Criança dessa é bailarina sem roupa nem sombrinha
se equilibrando descalça na linha fina demais da vida
o leão solto da jaula pronto para dar o bote
e ela mágico sem cartola de onde tira o truque derradeiro que a salve

Pula o leão, vai-se a criança engolida numa só bocada

De pé, o respeitável público aplaude e come amendoim"

Maria Rezende

Não está do lado de fora

Honestamente, tenho medo mesmo de minhas próprias críticas.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Veja de outro angulo

Tem que ser de dentro

"Fora assim com as outras. Mas com você é diferente. Tudo muda ao seu lado" Ele disse isso a ela. "Eu sinto algo quando chego perto de ti, que nunca senti antes" Ela declarou isto a ele. "Eu não sou de confiar rápido nas pessoas, mas eu já confio em você" A amiga disse a outra.
Impressionante como o com você é diferente encontra-se tão banalizado. É preciso valorizar os realmente sinceros, os que são comprovados com os atos e não apenas com essas meras palavras ditas, hoje em dia, pela grande maioria.
Comprove que o seu é realmente sincero, e não compactue com esses outros que dizem tudo por dizer.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O que os outroa vão pensar?

Mas, pra ser franca, quando eu era pequena não tinha medo nenhum de bicho-papão,
mula-sem-cabeça ou de bruxa malvada. Quem me aterrorizava era outro tipo de monstro. Eles atacavam em bando. Chamavam-se Os Outros.
Nada podia ser mais danoso que Os Outros. As crianças acordavam de manhã já pensando neles. Quer dizer, as crianças não: as mamães. Era com os outros que elas nos ameaçavam caso não nos comportássemos direito. Se não estudássemos, Os Outros nos chamariam de burros. Se não fôssemos amigos de toda a classe, os Outros nos apelidariam de bicho-do-mato. Se não emprestássemos nossos brinquedos, Os Outros nunca mais brincariam conosco.
E o pior é que as mães não mantinham a lógica do seu pensamento. “Mas mãe, todo mundo dorme na casa dos amigos” “Eu lá quero saber dos Outros? Só me interessa você!” Era de pirar a cabeça de qualquer um. Não víamos a hora de crescer para nos vermos livres daquela perseguição.

Veio a adolescência, e que desespero: descobrimos que os Outros estavam mais fortes do que nunca, ávidos por liquidar com nossa reputação. “Você vai na festa com esta calça toda furada? O que Os Outros vão dizer?” “Filha minha não viaja sozinha com o namorado, não vou deixar que vire comentário na boca dos Outros”.
Não tinha escapatória: aos poucos fomos descobrindo que os outros habitavam o planeta inteiro, estavam de olho em todas as nossas ações, prontos para criticar nossas atitudes e ferrar com nossa felicidade.

Hoje eles já não nos assustam tanto. Passamos por poucas e boas e, no final das contas, a opinião deles não mudou o rumo a nossa história. Mas ninguém em sã consciência pode se considerar totalmente indiferente a eles. os outros ainda dizem horrores de nós. Ainda têm o poder de nos etiquetar, de nos estigmatizar. A gente bem que tenta não levá-los a sério, mas sempre que bate uma vontade de entregar os pontos ou de chorar no meio de uma discussão, pensamos: “Não vou dar este gostinho para Os Outros”.

Martha Medeiros

Frases que não servem para nada

"Tem frases que não servem pra nada, são ditas só por dizer. Será que não servem pra nada mesmo? Na verdade, estas frases servem para disfarçar silêncios embaraçosos ou para demonstrar uma boa intenção. O título desta crônica deveria ser Frases que Não Servem para Quase Nada. Mas ia ficar muito grande.
Vamos a elas.
"Vai passar." Sua amiga está no fundo do poço, não consegue nem sair da cama de manhã, uma depressão que se instalou há meses e que ninguém consegue detectar a origem. Vai passar? Provavelmente, mas o fato de você dizer estas duas palavrinhas não muda nada. Sua presença ali, mesmo quietinha, ajuda muito mais.
"Desculpe qualquer coisa." Conheci uma senhora muito humilde que fazia serviços domésticos e que, todo dia, na hora de se despedir, pedia desculpas por alguma coisa que ninguém sabia o que era. Ela teria quebrado algum copo? Ela dissera alguma impropriedade? Nada, era uma profissional de primeira. Desconfio que ela se sentia um estorvo na família. Era uma espécie de constrangimento por existir. Uma vez, de brincadeira, ameacei-a com demissão se continuasse pedindo desculpas por nada. Na mesma hora ela me pediu desculpas por pedir tantas desculpas.
"A gente se fala." Vem engatado no tchau, é automático. A gente se fala um dia, a gente se fala no Natal, a gente se fala em outra encarnação. Nada pode ser mais abstrato.
"Eu não disse?" Você acaba de provar que tem vocação para vidente. Mas não espere agradecimentos, no máximo um sorriso amarelo. Geralmente este "eu não disse?" vem depois de uma previsão agourenta. "Você vai cair desta bicicleta." Tchibum!
"Você tem que reagir." Na verdade o que a gente deveria dizer mesmo é "procura outro emprego/sai deste casamento/pede ela em casamento/troca de médico/faz uma terapia/bota a boca nos jornais". Mas vá que o maluco siga mesmo nossos conselhos. Melhor não arriscar.
"Tira ela da cabeça." Moleza. Você namorou a mulher cinco anos, moraram juntos, fizeram planos, ela era tudo o que você nem se atrevia a sonhar, e um belo dia, puf. Acabou. Eu não disse? Não era pro seu bico. Mas vai passar. Você tem que reagir. Tira ela da cabeça. Vou indo, a gente se fala. E desculpa qualquer coisa."

Martha Medeiros

Porque precisamos de alguém

"Pode acontecer a qualquer hora do dia, de qualquer dia. Numa sexta-feira às 17h20m de uma tarde nublada. Você decide que não quer mais fazer o que faz, que precisa trocar de profissão ou trocar de país mas lembra que pra isso precisa de uma grana que não tem, o sonho de repente fica distante mas a angústia segue brutal, e então a solução: o telefone. Você liga pra pessoa que mais conhece você, que melhor decifra suas neuroses, e não é sua mãe nem seu psiquiatra: é ele. Aquela pessoa a quem você chama intimamente de amor. Do outro lado da linha, o seu amor ouve pacientemente toda sua narrativa turbulenta e irracional, dá uma risada que não é de deboche e sim de quem já viu/ouviu essa cena duas mil vezes e diz: daqui a pouco eu tô aí e a gente conversa sobre isso. Daqui a pouco passa rápido e ele chega. Você não está mais pensando exatamente aquilo que estava pensando antes. Aquilo evoluiu para um diagnóstico emocional torturante: você não vai mais trocar de emprego nem de país, simplesmente porque descobriu que é uma pessoa instável, maluca e com fraquezas que se revelam no meio de uma tarde nublada, e que sendo assim é melhor ficar onde está. Mas chora. Não vai perder esta oportunidade. Seu amor lhe dá um abraço de urso, faz estalar sua terceira e quarta vértebras e fala que bom que você não vai embora, então que tal um cinema pra comemorar? Ao se olhar no espelho você se depara com uma mulher seis anos mais velha e 750ml de lágrimas mais inchada, mas antes que comece a chorar de novo, ele diz: tá linda. Vamos nessa. O filme termina e você quer conversar. Mais calma, conta pra ele como é difícil pra você manter suas escolhas, que às vezes você gostaria de experimentar sensações novas mas é complicado abrir mão do conhecido em favor do desconhecido e, olha, juro, dessa vez não é TPM. Então ele diz que também sente isso às vezes, dá um puta beijo nela e, olhando bem no seu olho, diz: é TPM, sim, mas não tem importância. Amor não é mais do que isso."

Martha Medeiros

Escondido nas linhas

Escrevi.
Reescrevi.
Li.
Novamente.
Estava terrível. Não muito diferente deste.
Mas leia nas entrelinhas, que por trás das mesmas, há um tesouro, inventado por cada indivíduo que por aqui passar os olhos.